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Pronunciamentos
23/06/98
Fala do ministro
Pedro Malan na abertura da Teleconferência "Pacto Fiscal: Fortaleza,
Debilidades e Desafios", elaborada pela Comissão Econômica
para a América Latina e o Caribe – Cepal
Sem Revisão do Autor
Eu queria expressar minha satisfação
pela oportunidade de recebê-los aqui e a todos que nos estão ouvindo em outras
partes do Brasil. Minha satisfação se deve a várias ordens de razão. A
primeira, por contar aqui, no Ministério da Fazenda, com colegas de ministério,
como o ministro Bresser Pereira, Waldeck Ornellas, e o secretário-executivo do
ministério do Planejamento, representando o ministro Paulo Paiva. A presença
deles aqui é uma mostra da importância que nós atribuímos à discussão
desse importante trabalho que a Cepal vem lançar.
A segunda razão é porque a Cepal é uma
organização cara a muitos de nós. Aqui na mesa são todos muitos jovens, mas
os que já chegaram à minha idade sabem da importância que a Cepal desempenhou
no debate sobre o desenvolvimento econômico e social na América Latina, e
continuará sendo assim porque eu conheço o atual secretário-executivo José
Antonio Ocampo de longa data, com os nossos circuitos acadêmicos da região,
como ministro da Fazenda da Colômbia, onde teve um exemplar desempenho, e agora
como secretário-executivo da Cepal. E a terceira e última razão, porque esse
tópico – a questão fiscal, o que já fizemos e cada um dos países da região,
as nossas reconhecidas fragilidades e deficiências ainda por superar e os
desafios que temos pela frente estão tratados com competência neste trabalho
que hoje será objeto de discussão.
Alguns dos temas aqui levantados são temas que nós
estamos há algum tempo tentando fazer com que o debate seja aprofundado no
Brasil. Eu me refiro aqui a alguns deles, que é a discussão sobre o volume de
gastos e o volume de recursos que o governo destina a uma determinada área.
Seguramente é uma discussão importante, mas tem necessariamente de vir
acompanhada por uma discussão sobre a eficácia do uso desses recursos e a
qualidade do gasto público na área que está sendo discutido. É um dos cinco
elementos fundamentais deste trabalho aqui. É exatamente a elevação da
produtividade, da eficiência, da qualidade do gasto público, em particular na
área social e na eficiência dos aparelhos regulatórios hoje em funcionamento
na região. Ligado ainda ao volume de recursos e à eficiência do gasto, existe
a questão dos mecanismos de fiscalização e de controle desses gastos, não só
por parte de quem os executa, como também por parte da sociedade em seu
conjunto, o que nos remete à questão da transparência, que é outro
ingrediente fundamental da discussão dos cinco elementos básicos. Os outros três
elementos são: a consolidação desse processo de reforma e mudança em regimes
fiscais na região, e nesse sentido o trabalho é uma importante contribuição
neste momento em que nós estamos e estaremos empenhados em dotar o país de um
regime fiscal adequado ao Brasil do século XXI, que nos bate às portas. E os
dois últimos elementos são absolutamente essenciais. Um deles, eu folgo em ver
que é tratado aqui com competência é a questão do papel não só do gasto público,
como também o sistema de tributação público na busca de maior eqüidade,
maior justiça, menor desequilíbrio social na distribuição de renda e
riquezas na região. Isso é um dos elementos centrais da discussão, e eu fico
satisfeito em ver aqui e, importante, ligado ao problema fiscal, tanto do lado
do gasto quanto da arrecadação. E, por último, o trabalho mostra com
claridade quão importante é o fortalecimento de nossas instituições democráticas,
o nosso estado democrático de direito, para toda essa discussão sobre eficácia
e eficiência do setor público.
Eu não pretendo resumir o trabalho aqui. Isso
será feito agora por José Antonio Ocampo. Após a apresentação nós teremos
os comentários dos dois ministros, do secretário-geral do Planejamento, mas eu
só queria dizer que não poderia ter chegado em melhor hora, em melhor
oportunidade esta discussão e que nós estamos na expectativa de aprofundar o
que nós chamamos de a cultura da estabilidade com crescimento, com mudança
estrutural e com aumento de produtividade, ao mesmo tempo em que reduzimos
nossas flagrantes injustiças na área social ao longo do tempo que este
trabalho propõe exatamente uma discussão sobre essa questão. Pode-se discutir
se o título é o título mais apropriado: o pacto fiscal. Mas, na verdade, o
que ele está propondo é que nós sejamos capazes de aprofundar a discussão
sobre essa discussão tão vital, que pode ser resumida assim: nível desejado
de gastos que os governos têm de fazer, e nós sabemos todos, principalmente em
países com grandes carências sociais, a demanda por gastos excede no curto
prazo em muito a possibilidade de atendê-los.
Nós resolvemos, entre aspas, de maneira
paradoxal e perversa neste país essa questão durante mais de duas décadas
através do imposto inflacionário. Tínhamos um grande desequilíbrio ex-ante
entre o desejo legítimo, devo dizer, as demandas legítimas, devo dizer, de
gastos em várias áreas, não só na área social, mas também de infra-estrutura
e várias outras. E tínhamos um volume de recursos que a própria coletividade
entrega ao governo, o que é importante nesse debate: o governo federal,
estadual e municipal não produz recursos. Os recursos que vêm são derivados
ou de contribuições, ou de dívidas internas e externas. E, portanto, a
capacidade que o país tem de atender as suas legítimas demandas por gastos tem
como contrapartida a capacidade que ele tem de extrair da sociedade seja sob a
forma de impostos, contribuições, ou seja pela forma de dívidas, o que
significa a colocação de papéis do governo junto ao público interno e
externo os recursos necessários para atendê-lo.
Nós tínhamos e temos ainda no Brasil um grande
desequilíbrio ex-ante, para usar o jargão dos economistas, entre essas
demandas e os recursos para atendê-los. Nós resolvemos ou fingíamos que estávamos
resolvendo esse problema durante décadas com o uso da inflação, imposto
inflacionário. Era a inflação que nos permitia, ao cabo de um exercício
fiscal, dar a entender ou parecer que nós tínhamos atendido aquelas demandas
através da inflação, que erodia, em termos reais, os gastos nominais
previstos e programados no orçamento. E nós chegávamos ao final do exercício
aparentemente com o resultado, em termos de desequilíbrio fiscal ex-post que não
parecia tão elevado assim. Na verdade, ele era muito menor que a magnitude do
desequilíbrio ex-ante. Nós usávamos a inflação para, ao longo do exercício,
adequar demandas nominais em termos reais à disponibilidade de recursos
existentes.
Quando nós não temos mais a inflação, essa
discussão tem que voltar ao centro do debate. A capacidade que o governo tem,
qualquer governo, de atender essas legítimas demandas depende, por um lado, da
capacidade que ele tenha de extrair mais impostos e contribuições ou de
aumentar o seu volume de endividamento. Em não sendo possível fazê-lo, existe
a solução, à qual nós não vamos recorrer neste país, do rodar da
maquininha, o imprimir papel-moeda, e utilizar o imposto inflacionário, que, na
verdade, é mandar a conta para o conjunto da sociedade, principalmente sobre os
mais pobres, por cujos ombros recai o imposto inflacionário.
Nós não queremos fazer isso e não vamos fazer.
E, portanto, a discussão passa a ser sobre não só o nível do gasto público,
mas a eficácia e a eficiência desse gasto; não só o nível de tributação,
mas a eficiência do sistema de coleta de impostos e os limites ao endividamento
interno e externo que o país pode suportar ou está disposto a suportar.
Esse trabalho representa, ao meu juízo, uma
importante contribuição para a discussão das implicações para o regime
fiscal de um país que tem os objetivos, e, só para concluir, são os objetivos
desse governo, que são assegurar a inflação sob controle, não trazer de
volta o imposto inflacionário, que é mandar a conta para os pobres desse país;
mas, ao mesmo tempo, assegurando outros dois objetivos, que são absolutamente
indissociáveis da preservação da inflação sob controle: o crescimento
sustentado, com mudança estrutural e aumento da produtividade; e, como tanto
inflação baixa com crescimento sustentado não são objetivos em si mesmo, são
meios para que outros objetivos sejam alcançados, o terceiro e fundamental
objetivo é assegurar um processo de melhora das condições de vida da maioria
da população brasileira.
Daí a importância, entre outras, da preocupação
tão bem expressa nesse trabalho com problemas de regime fiscal e redução de
desigualdade na distribuição de renda e riqueza num país. Isso é parte
integrante de um processo de melhora das condições de vida, como o são a
inflação baixa e o crescimento sustentado ao longo do tempo.
Eu não queria me estender demais. Queria
agradecer a presença de todos, a presença do meu velho amigo José Antonio
Ocampo, o qual ouviremos agora apresentar as linhas centrais do trabalho, e,
obviamente, sairemos todos enriquecidos com os comentários que farão Luiz
Carlos Bresser Pereira, Waldeck Ornellas e o doutor Marcus Tavares. Muito
obrigado a todos pela atenção. Eu passo a palavra ao coordenador, para que dê
a palavra ao doutor José Antonio.
Muito obrigado a todos.
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