Pronunciamentos

27/04/98

Malan reitera importância da reforma previdenciária

Sem revisão do autor

Jovem Pan - Depois dos acontecimentos da semana passada, os mercados pareciam preocupados com a continuidade das reformas no Brasil. O que está sendo feito para garantir a aprovação da reforma da previdência ainda esta semana?

Ministro - Lamento como todos os brasileiros a perda do ministro Sérgio Motta e do nosso líder Luís Eduardo Magalhães, mas o fato é que o presidente Fernando Henrique deixou claro desde Madri, e reiterou quando chegou aqui ao Brasil, que ele esperava que a melhor homenagem que nós poderíamos prestar a memória de Sérgio Motta e Luís Eduardo Magalhães seria avançar no processo de reformas e em particular na votação da reforma da previdência, em que falta apenas o quarto e o último voto. Ela já foi aprovada em duas votações no Senado e uma votação na Câmara e falta uma que esperamos possa ter lugar ainda esta semana.

Jovem Pan - Mesmo aprovada, a reforma da previdência não traria grandes impactos este ano. Qual a previsão dos efeitos da reforma sobre as contas públicas no ano que vem?

Ministro - Na verdade, a proposta da reforma da previdência procura lidar com um problema que é um problema de um déficit estrutural, crescente, da previdência ao longo dos próximos anos. Não é uma solução imediata que já tenha resultados significativos no primeiro ano, mas ela já contribui para reverter uma situação. No ano passado, para se ter uma idéia, o déficit só do INSS foi de quase R$ 3 bilhões. Esse ano se a reforma não for aprovada ele pode ficar perto dos R$ 6 bilhões, que é crescente ao longo do tempo. Na verdade nós temos dois problemas com o sistema e os seus três regimes, eles não têm equilíbrio financeiro, eles têm um déficit estrutural crescente que significa uma conta que estamos transferindo para as futuras gerações, são os nossos filhos e os nossos netos que terão que pagar essa conta no futuro. Além disso, além do desequilíbrio econômico e financeiro e atuarial que é crescente, o sistema tem uma outra característica que é inaceitável num país de enormes desigualdades e carências sociais gritantes como é o Brasil, ele é profundamente injusto do ponto de vista social. Nós temos uma situação em que os mais pobres estão pagando pelas aposentarias dos relativamente mais ricos, nesses regimes especiais que nós temos, em particular na área da União, dos Estados e dos municípios. Para se ter uma idéia da dimensão desse problema, nós temos cerca de 17,4 milhões de aposentados e pensionistas no âmbito do INSS que custaram no ano passado R$ 47 bilhões. Isso representa mais de 85% do total da população previdenciária no Brasil. Nós temos menos de 15% que são os inativos e pensionistas do setor público – união, Estados e municípios - que representam menos de 15% do número de pessoas e que custam muito mais do que os R$ 47 bilhões que custam os 17,4 milhões de aposentados. E é crescente esse custo por conta dessa miríade de regimes de critérios de privilégios que foram ao longo do tempo sendo incorporados. Portanto, é uma questão de preocupação com equilíbrio financeiro, preocupação com gerações futuras e preocupação com justiça social que fazem imperativo e urgente a aprovação da reforma da previdência.

Jovem Pan - Mas no ano que vem já dá para começar a melhorar, a reduzir o déficit da previdência?

Ministro - Não tem dúvida que ao longo dos próximos anos a reforma sendo aprovada, esse problema de déficits estruturais crescentes ao longo do tempo passa a ser revertido. Isso é que é importante, nós precisamos mostrar, e não é mostrar ao resto do mundo, é para mostrar a nós mesmos, brasileiros, que nós estamos sendo capazes de equacionar os nossos problemas. O Brasil, dos dez principais países da América Latina, sete, oito já reformaram ou estão em processos avançados de reforma do seu sistema previdenciário. O Brasil está atrasado nesse processo em relação ao que está acontecendo no resto do mundo. No mundo inteiro hoje apenas seis países não têm idade mínima para aposentadoria: o Benin na África, o Equador na América Latina, o Egito, o Irã, o Iraque e o Kuwait, em todos os outros países do mundo existe idade mínima para aposentadoria e em todas essas reformas a idade mínima foi elevada. Na Europa, um servidor público se aposenta, em média, com 65 anos de idade, contribui durante 35 e leva uma remuneração como aposentado que não pode acumular que é da ordem de 70% a 80% do que ganhava na ativa. Aqui no Brasil a idade média de aposentadoria desses regimes especiais é da ordem de 49 anos e a expectativa de vida de alguém que chegou aos 49 anos é de pelo menos mais 25 anos adiante. Então nós temos uma situação de aposentadoria precoce e de um período de utilização do benefício previdenciário que com freqüência excede de muito o número de anos que a pessoa contribuiu, existe um descompasso entre o valor da contribuição, o valor presente acumulado e o valor dos benefícios auferidos ao longo de décadas posteriormente, que na verdade é uma conta que nós remetemos para o conjunto da sociedade brasileira, para os pobre de hoje e para as gerações futuras.

Jovem Pan - O Governo deve apresentar esta semana as simulações e o detalhamento da proposta de reforma tributária. O senhor acredita que o texto possa ser votado, pelo menos na comissão da Câmara, ainda este semestre, antes das eleições?

Ministro - Nós estamos trabalhando intensamente para isso e a nossa intenção nos próximos dias é encaminhar à comissão de reforma tributária do Congresso Nacional o detalhamento da proposta cujas linhas gerais foram apresentadas já há alguns meses pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, doutor Pedro Parente, ao próprio Congresso, um texto que deixa muito claro qual é a estrutura do nós estamos propondo. Uma proposta detalhada estará sendo apresentada em breve. Eu não tenho ilusão, para falar com franqueza, que será possível este ano, um ano eleitoral, nós temos todo o processo de reforma da Constituição com duas votações, uma no Senado e mais duas na Câmara, isso não seria realista. Em conversa que temos tido com o presidente da comissão, deputado Paulo Lustosa, o relator, o deputado Mussa Demes, nós vamos fazer um esforço conjunto, Executivo e Legislativo, para avançarmos no âmbito das discussões na comissão. O ideal seria que pelo menos no âmbito da comissão já fosse possível ter algo aprovado para encaminhamento ao plenário mais adiante.

Jovem Pan - A questão da CPMF será incluída na reforma? O Governo está pensando em prorrogar a CPMF?

Ministro - Nós achamos que como nós estamos propondo uma reforma fiscal não apenas tributária, pois a proposta contempla tanto o lado da arrecadação quanto o lado do gasto nas três esferas de governo, obviamente nós gostaríamos que essa discussão sobre a CPMF fosse parte integrante da discussão mais ampla sobre a reforma fiscal. Esta é mais uma razão para nós acelerarmos e termos essa discussão a partir de agora no âmbito da comissão no Congresso Nacional.

 

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