Pronunciamentos

12/11/97

Malan  analisa origem da crise das bolsas

Em entrevista à homepage do Ministério da Fazenda na Internet, o ministro Pedro Malan afirmou que a turbulência iniciada com o crash das bolsas de valores do Sudeste Asiático pode ser considerada "nossa primeira crise global, não restrita a uma região apenas". O ministro analisa a origem da crise e seus efeitos sobre o Brasil.

A seguir a íntegra da entrevista:

Pergunta - A crise atual é pior de que a do México no final de 1994?

Pedro Malan - A crise mexicana ficou limitada à América Latina. Não se transformou em uma crise mais geral de financiamento de mercados emergentes devido à rapidez do pacote de ajuda do Governo dos EUA, da ação do FMI e da ação do próprio Governo mexicano. O PIB mexicano caiu 7% em 95 em decorrência do ajuste e houve desvalorização nominal de mais de 100% da moeda. A Argentina também foi obrigada a responder de forma drástica à crise, registrando em 95 uma redução de 4,5% em seu produto. O Brasil também foi afetado, mas a crise mexicana ficou restrita a uma região. O fato é que o que poderia ter se transformado em uma crise global dos mercados emergentes acabou sendo percebido como uma crise regional, limitada à América Latina. A crise atual, ao contrário, pode ser considerada nossa primeira crise global, não restrita a uma região apenas.

Pergunta - Quais as origens da crise atual?

Pedro Malan - A crise atual iniciou-se no Sudeste Asiático devido a diversos fatores. Em primeiro lugar, havia um problema estrutural, decorrente da percepção de que o altíssimo crescimento de países como Tailândia, Malásia, Indonésia, Coréia e Filipinas não seria sustentável àquelas taxas ao longo do tempo. O Sudeste Asiático mostrava indícios claros de estar vivendo o processo de esgotamento de um ciclo expansionista clássico. Características como a expansão vertiginosa do crédito, o excesso de endividamento externo, o sobreinvestimento, com os investimentos superando em muito a poupança, e a ocorrência de "boom" imobiliário levaram à percepção de que o ciclo sincronizado de crescimento na região estava chegando ao final. Esses fatores, aliados ao prolongamento da crise no Japão, levaram à conclusão de que as moedas asiáticas estavam desalinhadas frente ao dólar, tornando-as vulneráveis a ataques especulativos. Ao contrário do que ocorreu no México, a crise asiática agravou-se com a demora na adoção de remédios eficazes. O pacote de ajuda do FMI à Tailândia, por exemplo, ainda não está totalmente definido. O pacote do FMI com a Indonésia, cuja negociação teve início em julho, só foi anunciado na última semana de outubro. Com as desvalorizações sucessivas nas moedas do Sudeste Asiático, Hong Kong passou a ser objeto de dois tipos de aposta: em primeiro lugar, a de que não conseguiria manter a paridade de sua moeda frente ao dólar, o que vinha ocorrendo há 15 anos; em segundo lugar, havia a preocupação com relação aos efeitos, sobre a competitividade de Hong Kong, das desvalorizações que estavam sendo implementadas nos outros países asiáticos. Esses fatores geraram a percepção de que os ativos financeiros na região estavam necessitando de uma correção, o que provocou a queda da Bolsa de Hong Kong, que caiu cerca de 30% entre os dias 20 e 27 de outubro.

Pergunta - Por que a crise atual não ficou restrita ao Sudeste Asiático?

Pedro Malan - Até a forte queda da Bolsa de Hong Kong, a crise era passível de ser entendida como asiática. O fato é que Hong Kong provocou a queda da Bolsa de Nova York, que registrou uma das 12 maiores quedas de sua história, com efeitos sobre todas as bolsas. A crise então se globalizou pela conjunção de dois fatores. De um lado, houve a percepção, acertada ou não, de que estava ocorrendo uma crise mais generalizada de financiamento de países emergentes. De outro, a partir da queda de Nova York, houve uma parada para verificar se a Bolsa norte-americana não estava vivendo o fim de um ciclo expansionista. Nesse contexto é bom lembrar que o presidente do FED, Alan Greenspan, havia feito alertas públicos contra o que chamou de "exuberância irracional" das Bolsas e chamado a atenção para possíveis correções de preços de ativos. Esses fatores levaram a um clima de incerteza e dúvida que se espalhou pelo mundo todo.

Pergunta - Por que o Brasil foi afetado por esse clima geral de desconfiança?

Pedro Malan - À luz do novo contexto internacional em crise, os déficits em conta corrente e fiscal do Brasil passaram a ser vistos como extremamente elevados. O índice de 4,6% de déficit nominal é visto como muito alto em comparação com os demais países da América Latina. Do mesmo modo, existe a percepção de que o déficit em conta corrente brasileiro é elevado face a outros países que não sofreram desvalorização de suas moedas. A combinação dessa percepção com outros fatores (instabilidade na Bolsa de São Paulo, uma das maiores entre os mercados emergentes, oscilações no mercado de Bradies brasileiros no exterior, boatos sobre dificuldades que certas instituições financeiras brasileiras estariam enfrentando, a visão de que as reformas não progridem no Brasil) levou a uma concentração maior de atenção no Brasil e gerou dúvidas quanto à preservação da política cambial do Governo brasileiro. As turbulências da semana passada exigiram uma resposta firme do País. O Brasil foi obrigado a utilizar parcela de suas reservas internacionais para manter a estabilidade do Real. Parte do que foi gasto ainda permanece no País e já vem sendo recomprada pelo Banco Central. Tivemos ainda que promover uma elevação da taxa de juros. A decisão foi correta. Em março de 95 também fomos obrigados a elevar os juros devido aos efeitos da crise mexicana e a um claro superaquecimento da economia brasileira que colocava em risco o Real. A situação agora é diferente, pois a economia brasileira não registra sinais de aquecimento. Assim, tão logo demonstremos nossa capacidade de reagir, haverá a queda na taxa de juros.

Pergunta - Como o Brasil pode demonstrar essa capacidade?

Pedro Malan - Para isso, é importante que o País demonstre que sua capacidade de reação extrapola, isto é, não fica restrita à ação da autoridade monetária. Isso deve ser demonstrado de três formas. Em primeiro lugar, em uma operação conjunta dos Poderes Executivo e Legislativo, deve ser adotado um esforço concentrado para a votação das reformas administrativa, fiscal, da previdência, da legislação trabalhista, da regulamentação do art. 192 da Constituição (sistema financeiro). Temos que mostrar que essas reformas estão sendo aceleradas. Além disso, medidas concretas estarão sendo adotadas para redução do déficit fiscal e do déficit em conta corrente, que deverão apresentar em 98 resultados melhores que os deste ano.

Pergunta - A política cambial deve sofrer alguma modificação?

Pedro Malan - A política cambial está definida e não será alterada.

Pergunta - Há previsão para a queda da taxa de juros?

Pedro Malan - Como foi dito, os juros cairão tão mais rapidamente quanto formos capazes de implementar as reformas que demonstrem nossa capacidade de reagir e de reduzir os déficits fiscal e do balanço de pagamentos em conta corrente.

Pergunta - O programa de privatização pode ser afetado pela crise?

Pedro Malan - O programa de privatização prossegue exatamente como vem sendo desenvolvido.

Pergunta - Como estão as perspectivas para o balanço de pagamentos em 97?

Pedro Malan - As exportações brasileiras cresceram 11% nos primeiros dez meses de 97, comparados com os primeiros dez meses de 96. O déficit da balança comercial de janeiro a outubro de 1997 é da ordem de 6,8 bilhões. O déficit acumulado nos 12 meses terminados em 31 de outubro de 1997 será inferior a 9,5 bilhões (após os ajustes já anunciados nas importações). Como o déficit do bimestre novembro e dezembro de 1996 foi superior a 2,6 bilhões e será certamente inferior a este valor em novembro-dezembro de 1997, o déficit comercial do ano calendário de 1997 deverá ser inferior a 9 bilhões, contra estimativas que variavam de 12 a 16 bilhões feitas no início do ano por muitos analistas internos e externos.

 

 

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