Malan analisa origem da crise das bolsas
Em entrevista à homepage do Ministério da Fazenda na Internet, o ministro Pedro Malan
afirmou que a turbulência iniciada com o crash das bolsas de valores do Sudeste Asiático
pode ser considerada "nossa primeira crise global, não restrita a uma região
apenas". O ministro analisa a origem da crise e seus efeitos sobre o Brasil.
A seguir a íntegra da entrevista:
Pergunta - A crise atual é pior de que a do México no final de
1994?
Pedro Malan - A crise mexicana ficou limitada à América Latina. Não
se transformou em uma crise mais geral de financiamento de mercados emergentes devido à
rapidez do pacote de ajuda do Governo dos EUA, da ação do FMI e da ação do próprio
Governo mexicano. O PIB mexicano caiu 7% em 95 em decorrência do ajuste e houve
desvalorização nominal de mais de 100% da moeda. A Argentina também foi obrigada a
responder de forma drástica à crise, registrando em 95 uma redução de 4,5% em seu
produto. O Brasil também foi afetado, mas a crise mexicana ficou restrita a uma região.
O fato é que o que poderia ter se transformado em uma crise global dos mercados
emergentes acabou sendo percebido como uma crise regional, limitada à América Latina. A
crise atual, ao contrário, pode ser considerada nossa primeira crise global, não
restrita a uma região apenas.
Pergunta - Quais as origens da crise atual?
Pedro Malan - A crise atual iniciou-se no Sudeste Asiático devido a
diversos fatores. Em primeiro lugar, havia um problema estrutural, decorrente da
percepção de que o altíssimo crescimento de países como Tailândia, Malásia,
Indonésia, Coréia e Filipinas não seria sustentável àquelas taxas ao longo do tempo.
O Sudeste Asiático mostrava indícios claros de estar vivendo o processo de esgotamento
de um ciclo expansionista clássico. Características como a expansão vertiginosa do
crédito, o excesso de endividamento externo, o sobreinvestimento, com os investimentos
superando em muito a poupança, e a ocorrência de "boom" imobiliário levaram
à percepção de que o ciclo sincronizado de crescimento na região estava chegando ao
final. Esses fatores, aliados ao prolongamento da crise no Japão, levaram à conclusão
de que as moedas asiáticas estavam desalinhadas frente ao dólar, tornando-as
vulneráveis a ataques especulativos. Ao contrário do que ocorreu no México, a crise
asiática agravou-se com a demora na adoção de remédios eficazes. O pacote de ajuda do
FMI à Tailândia, por exemplo, ainda não está totalmente definido. O pacote do FMI com
a Indonésia, cuja negociação teve início em julho, só foi anunciado na última semana
de outubro. Com as desvalorizações sucessivas nas moedas do Sudeste Asiático, Hong Kong
passou a ser objeto de dois tipos de aposta: em primeiro lugar, a de que não conseguiria
manter a paridade de sua moeda frente ao dólar, o que vinha ocorrendo há 15 anos; em
segundo lugar, havia a preocupação com relação aos efeitos, sobre a competitividade de
Hong Kong, das desvalorizações que estavam sendo implementadas nos outros países
asiáticos. Esses fatores geraram a percepção de que os ativos financeiros na região
estavam necessitando de uma correção, o que provocou a queda da Bolsa de Hong Kong, que
caiu cerca de 30% entre os dias 20 e 27 de outubro.
Pergunta - Por que a crise atual não ficou restrita ao Sudeste
Asiático?
Pedro Malan - Até a forte queda da Bolsa de Hong Kong, a crise era
passível de ser entendida como asiática. O fato é que Hong Kong provocou a queda da
Bolsa de Nova York, que registrou uma das 12 maiores quedas de sua história, com efeitos
sobre todas as bolsas. A crise então se globalizou pela conjunção de dois fatores. De
um lado, houve a percepção, acertada ou não, de que estava ocorrendo uma crise mais
generalizada de financiamento de países emergentes. De outro, a partir da queda de Nova
York, houve uma parada para verificar se a Bolsa norte-americana não estava vivendo o fim
de um ciclo expansionista. Nesse contexto é bom lembrar que o presidente do FED, Alan
Greenspan, havia feito alertas públicos contra o que chamou de "exuberância
irracional" das Bolsas e chamado a atenção para possíveis correções de preços
de ativos. Esses fatores levaram a um clima de incerteza e dúvida que se espalhou pelo
mundo todo.
Pergunta - Por que o Brasil foi afetado por esse clima geral de
desconfiança?
Pedro Malan - À luz do novo contexto internacional em crise, os
déficits em conta corrente e fiscal do Brasil passaram a ser vistos como extremamente
elevados. O índice de 4,6% de déficit nominal é visto como muito alto em comparação
com os demais países da América Latina. Do mesmo modo, existe a percepção de que o
déficit em conta corrente brasileiro é elevado face a outros países que não sofreram
desvalorização de suas moedas. A combinação dessa percepção com outros fatores
(instabilidade na Bolsa de São Paulo, uma das maiores entre os mercados emergentes,
oscilações no mercado de Bradies brasileiros no exterior, boatos sobre dificuldades que
certas instituições financeiras brasileiras estariam enfrentando, a visão de que as
reformas não progridem no Brasil) levou a uma concentração maior de atenção no Brasil
e gerou dúvidas quanto à preservação da política cambial do Governo brasileiro. As
turbulências da semana passada exigiram uma resposta firme do País. O Brasil foi
obrigado a utilizar parcela de suas reservas internacionais para manter a estabilidade do
Real. Parte do que foi gasto ainda permanece no País e já vem sendo recomprada pelo
Banco Central. Tivemos ainda que promover uma elevação da taxa de juros. A decisão foi
correta. Em março de 95 também fomos obrigados a elevar os juros devido aos efeitos da
crise mexicana e a um claro superaquecimento da economia brasileira que colocava em risco
o Real. A situação agora é diferente, pois a economia brasileira não registra sinais
de aquecimento. Assim, tão logo demonstremos nossa capacidade de reagir, haverá a queda
na taxa de juros.
Pergunta - Como o Brasil pode demonstrar essa capacidade?
Pedro Malan - Para isso, é importante que o País demonstre que sua
capacidade de reação extrapola, isto é, não fica restrita à ação da autoridade
monetária. Isso deve ser demonstrado de três formas. Em primeiro lugar, em uma
operação conjunta dos Poderes Executivo e Legislativo, deve ser adotado um esforço
concentrado para a votação das reformas administrativa, fiscal, da previdência, da
legislação trabalhista, da regulamentação do art. 192 da Constituição (sistema
financeiro). Temos que mostrar que essas reformas estão sendo aceleradas. Além disso,
medidas concretas estarão sendo adotadas para redução do déficit fiscal e do déficit
em conta corrente, que deverão apresentar em 98 resultados melhores que os deste ano.
Pergunta - A política cambial deve sofrer alguma modificação?
Pedro Malan - A política cambial está definida e não será
alterada.
Pergunta - Há previsão para a queda da taxa de juros?
Pedro Malan - Como foi dito, os juros cairão tão mais rapidamente
quanto formos capazes de implementar as reformas que demonstrem nossa capacidade de reagir
e de reduzir os déficits fiscal e do balanço de pagamentos em conta corrente.
Pergunta - O programa de privatização pode ser afetado pela
crise?
Pedro Malan - O programa de privatização prossegue exatamente como
vem sendo desenvolvido.
Pergunta - Como estão as perspectivas para o balanço de
pagamentos em 97?
Pedro Malan - As exportações brasileiras cresceram 11% nos primeiros
dez meses de 97, comparados com os primeiros dez meses de 96. O déficit da balança
comercial de janeiro a outubro de 1997 é da ordem de 6,8 bilhões. O déficit acumulado
nos 12 meses terminados em 31 de outubro de 1997 será inferior a 9,5 bilhões (após os
ajustes já anunciados nas importações). Como o déficit do bimestre novembro e dezembro
de 1996 foi superior a 2,6 bilhões e será certamente inferior a este valor em
novembro-dezembro de 1997, o déficit comercial do ano calendário de 1997 deverá ser
inferior a 9 bilhões, contra estimativas que variavam de 12 a 16 bilhões feitas no
início do ano por muitos analistas internos e externos.
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