Pronunciamentos

10/11/97

T
ranscrição da fala de abertura do ministro Pedro Malan durante divulgação das Medidas para Ajuste Fiscal e de Competitividade

 

Sem revisão do autor

Eu queria pedir desculpas pelo atraso e avisar, desde o início, para que não haja problemas de compreensão, que nós organizamos essa conversa da seguinte maneira: eu vou fazer uma intervenção inicial, logo após seguirá uma intervenção do ministro Kandir e depois nós temos que sair - eu, em particular, tenho uma reunião de trabalho com o presidente Fernando Henrique Cardoso, com o presidente Menen e com o ministro Roque Fernandes -, mas ficarão aqui os secretários-gerais dos dois ministérios, o secretário José Roberto Mendonça de Barros e o doutor Amauri Bier para apresentar detalhadamente a lista e responder perguntas.

Dito isso, deixe-me começar. Como é do conhecimento de todos, o Governo Brasileiro decidiu promover um rigoroso ajuste fiscal de efeito imediato. As medidas que estamos anunciando hoje contemplam tanto cortes pelo lado dos gastos públicos quanto aumento de receitas, e em seu conjunto representam um ganho fiscal da ordem de 20 bilhões de Reais. Vocês verão no texto, que será distribuído, do detalhamento das medidas que essa é uma estimativa conservadora. Nas inúmeras medidas que estão listadas aqui - são quase 50 - na verdade ainda consta um não disponível, porque nós resolvemos só colocar uma estimativa quando a medida contempla um ato, uma medida provisória, um decreto, algo específico que tem funcionamento imediato. Portanto não existem aqui expressões do tipo esforço de arrecadação, recursos a definir. São medidas concretas que estão sendo tomadas, que a nosso ver gerarão um expressivo superávit primário ao longo dos próximos meses e anos.

Antes de entrar em detalhes sobre as medidas, eu gostaria de enfatizar alguns pontos. O primeiro deles é o seguinte: esta decisão não significa de forma alguma uma mudança de rumo em termos das linhas gerais de condução da política econômica. Pelo contrário, ela constitui uma reafirmação do conhecido compromisso do governo com a reorganização do estado e com a redução do desequilíbrio fiscal do setor público consolidado. Esse tem sido não só o nosso discurso como também a nossa prática. E uma prática agora acelerada à luz das turbulências por que passam os mercados internacionais e que não parecem ser de curta duração. Nós temos uma tranqüila e serena convicção de que a melhor resposta que o país pode e deve dar a essas turbulências seguramente não é a de nos considerarmos vítimas passivas de eventos externos fora do nosso controle, mas é antes um redobrar os nossos esforços em relação ao processo de reformas em andamento, bem como acelerar a discussão sobre a sua continuidade e aprofundamento. Da mesma forma com o superávit primário que estará sendo gerado, assim como algo que todos os analistas estão, hoje, já realizando fora do governo, que é uma revisão para baixo do déficit em conta-corrente do balanço de pagamentos. Nós estamos convencidos de que, à medida que caminhemos para reduzir o déficit do setor público consolidado, bem como o déficit da balança de pagamento - que já está incorporado em todas as previsões que estão sendo feitas agora para o ano de 1998 -, será possível caminhar no processo de redução das taxas de juros.

Eu queria enfatizar que o empenho do governo não se restringe a esse conjunto de medidas que hoje está sendo anunciado na área fiscal. Nós vamos também ampliar o escopo do processo de privatização, trazendo mais ativos públicos ao processo, de forma que será explicada nos próximos dias, demonstrando claramente a nossa capacidade de, como país, financiar de maneira mais expressiva, internamente, o desenvolvimento econômico e social do país. Com efeito, o nosso objetivo fundamental, não é a primeira vez que dizemos isso, é aumentar a poupança interna, reduzindo o peso relativo da contribuição da poupança externa. E eu já mencionei essa revisão para baixo dos déficits em conta-corrente que estão sendo realizados.

Eu não poderia deixar de, mais uma vez, reiterar o compromisso, já feito inúmeras vezes, de que nós não pretendemos como governo abrir mão do controle da inflação, que como é sabido é um imposto inflacionário que incide desproporcionalmente sobre os mais pobres.

Por último, eu queria notar, e sabemos todos, que devemos uma satisfação à sociedade, à imprensa e à opinião pública. Porque nem todos têm o tempo, as condições, os meios, o interesse ou mesmo a paciência para acompanhar eventos no contexto internacional, e que portanto pode parecer àqueles que não têm essas condições que este conjunto de medidas, que estaremos anunciando hoje, vem como uma espécie de surpresa, algo desnecessário. Ao nosso ver não o é. É absolutamente indispensável uma resposta correta e apropriada do país a uma turbulência externa, que nós achamos que terá alguma duração. É um redobrar da aposta que nós fazemos na nossa capacidade de, como país, continuar o processo de restruturação do setor produtivo, de reorganização do estado e redução do seu déficit público e de reconstrução institucional do país. Estamos convictos de que o resto da sociedade compreenderá, ao analisar o conjunto de medidas, que esta era e é a resposta adequada à situação que nós estamos vivendo e que ela não é uma ruptura com a maneira pela qual vinha sendo conduzida a política econômica. Pelo contrário, é uma reafirmação das linhas gerais da política. Àqueles que não são especialistas, àqueles que procuram entender o porquê das medidas que estão sendo anunciadas hoje eu gostaria de dizer algo, e talvez seja uma maneira de exemplificar, simplificando ao extremo, mas chamando a atenção a um fato que cada cidadão, cada família brasileira, independentemente do seu nível de renda, será capaz de perceber da sua experiência cotidiana, da experiência de famílias que conhece, de amigos e conhecidos. O fato é o seguinte: nenhuma família, nenhum indivíduo pode, por um período prolongado de tempo, viver gastando mais que os seus rendimentos. A forma de fazê-lo é acumular dívidas, que em algum tempo levam a problemas de não-renovação e extensão de crédito, a perda de crédito da pessoa ou da família que gasta mais do que recebe, e que exige algum tipo de ajuste. O ajuste pode ser procurar aumentar os rendimentos, incorporar mais membros que recebem algum tipo de renda à estrutura familiar, cortar certo tipo de gastos. Essa é a analogia que eu gostaria de deixar aos não-especialistas, que em governos não é muito diferente. Nenhum governo pode, por um período excessivamente prolongado de tempo, viver acima de suas posses, gastando mais do que arrecada, e há limites para o endividamento, tanto interno quanto externo, num tipo de situação como essa. Nós queremos, portanto, resolver o problema na raiz, no seu fundamento, que é adequando o gasto e a qualidade do gasto do governo à sua real capacidade de arrecadação. E volto a dizer: setor público para nós é o Executivo Federal, são os 27 Estados e 5.525 municípios, é a previdência social, é o conjunto das empresas públicas federais, estaduais e municipais. É esse conjunto que denominamos setor público consolidado e nesse déficit que nós vamos, com esse conjunto de medidas, realizar uma redução expressiva, que é a nossa resposta adequada ao momento presente.

Era isso que eu gostaria de dizer como introdução e passo a palavra ao ministro Kandir e depois ao Pedro Parente, Martus, Amauri e José Roberto, que vão entrar em detalhes nas quase 50 medidas que foram aprovadas pelo Presidente da República, que constituem a resposta do governo aos desafios da hora presente e a preservação do Real, objetivo do qual nós não pretendemos abrir mão em benefício não do governo, mas da esmagadora maioria da população brasileira.

 

 

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