Ministro da Fazenda fala a Jô Soares
Transcrição da entrevista, gravada no dia 04.11, no programa Jô
Soares Onze e Meia, sem revisão do autor.
JS - Ministro, eu estou ligando para saber das novidades. Eu sei que teve
uma reunião com os líderes políticos, como é que está a coisa?
Ministro - Tivemos uma excelente reunião hoje, presidida pelo presidente
Fernando Henrique Cardoso, com a presença dos presidentes do Senado, da Câmara, todas as
lideranças dos partidos que apoiam o governo. Foi uma reunião extremamente positiva, no
sentido de que o Presidente chamou a atenção para a importância de, no momento atual, o
Executivo e o Congresso trabalharem juntos pelas votações que se encontram diante do
Congresso. Houve uma resposta extremamente favorável por parte do senador Antônio Carlos
Magalhães e o presidente da Câmara, deputado Michel Temer, e eu acho que o Congresso
estará...não que seja nenhuma intenção de mostrar que o problema é do Congresso, na
verdade o problema é de trabalho conjunto de Executivo com o Congresso, que eu acho que
ficou acertado nessa reunião. Estaremos vendo o resultado dessa reunião nas próximas
semanas.
JS - Como é que ficou em relação ao ajuste fiscal?
Ministro - Isso nós estamos conversando ainda dentro do governo. É fundamental
que nós manifestemos claramente para nós mesmo, que é muito mais importante do que para
o resto do mundo, o nosso compromisso em manter a austeridade fiscal e respeitar a
restrição orçamentária. O país não pode, por um período prolongado de tempo, gastar
muito mais do que arrecada. Estamos caminhando para reduzir o déficit fiscal; a
trajetória de queda é clara, mas precisamos dar uma clara demonstração do nosso
compromisso de dar continuidade a esse esforço.
JS - Houve alguma novidade em relação a corte, por que sai muita coisa
publicada e a gente queria saber?
Ministro - Não, não. Tem algumas sugestões que estão sendo discutidas em
âmbito do governo, mas você conhece o nosso estilo, não é? Nós discutimos uma coisa
no governo e quando a decisão é tomada nós explicamos com clareza e transparência para
a opinião pública. Não achamos que discussões internas do governo devam ser
acompanhadas em tempo real à medida em que elas têm lugar, porque o que importa é a
decisão final. Isso está em discussão no momento.
JS - Você acha que essa perda é recuperável a curto ou a médio prazo?
Ministro - Olha, eu acho que a semana passada foi uma semana de turbulências
muito grandes, não só aqui no Brasil mas no mundo todo. Eu acho que o pior da
turbulência da semana passada nós já superamos. O quê não quer dizer que as
turbulências, tanto no resto do mundo como aqui, não vão surgir de novo. Isso faz parte
do jogo. Eu devo lembrar que nós realmente tivemos de vender dólar. Isso aí na terça e
na quinta-feira da semana passada, mas a partir de sexta-feira à tarde, ontem e hoje -
hoje fizemos dois leilões de compra de dólar - estamos comprando, pagando menos no
dólar do que vendemos a um preço mais caro na semana passada. Então isso é uma amostra
clara de que nós estamos recuperando e que a turbulência da semana passada já está em
vias de superação. Agora, viver é perigoso; o mundo hoje é perigoso, nós temos de
estar preparados para isso. E a maneira de mostrar que nós estamos preparados é
avançando nesse relacionamento com o Legislativo, reafirmando o nosso compromisso de dar
continuidade ao processo de redução do déficit fiscal consolidado e mostrar que nós
temos, sim, condições de lidar com esse desequilíbrio na balança de pagamento. Devo
lembrar que as nossas exportações, nos primeiros dez meses desse ano, cresceram 11% em
relação aos dez primeiros meses do ano passado, o que não é um crescimento
desprezível em lugar nenhum do mundo. O déficit nosso comercial este ano deve ficar
talvez entre nove, talvez abaixo de nove bilhões de dólares, quando nós tínhamos uma
expectativa de 15, 16, 17 bilhões por parte de alguns.
JS - Agora, como é que o ministro da Fazenda consegue dormir tranqüilo,
depois de cercar por todos os lados a proteção do Real, em relação a câmbio, em
relação a uma série de coisas, e vem de repente um coice de Hong Kong...
Ministro - Pois é, isso é o que eu digo... A gente chega ao final do dia tão
cansado que não tem problema de dormir até a madrugada do dia seguinte. Eu posso
assegurar uma coisa a você: era muito mais difícil, as noites de insônia eram muito
maiores lá no segundo semestre de 93, quando nós estávamos discutindo o que fazer para
lidar com uma inflação de 30, 40% ao mês, uma situação muito pior da que temos hoje.
O Brasil mudou, está mudando, vai continuar mudando e para melhor. Temos uma confiança
na nossa capacidade de, como país, nos erguermos à altura dos desafios do momento. E
essas turbulências são parte da vida, nós temos de aprender a lidar com elas, com
coragem e determinação, como fizemos na semana passada.
JS - Agora, para terminar, eu vou fazer uma pergunta imbecil, em off. É o
seguinte, Ministro, quando é que os juros vão abaixar?
Ministro - É uma pergunta legítima, que a maioria dos brasileiros está se
fazendo, e corretamente. O que eu tenho a dizer é o seguinte: a elevação dos juros que
nós decidimos na quinta-feira da semana passada foi uma medida emergencial, para evitar
uma situação que poderia...um risco que nós resolvemos não correr, uma situação como
por exemplo o México enfrentou, no final de 94, 95, que levou a uma desvalorização de
mais de 100%, uma inflação que estava sob controle e que foi lá para quase 100%, uma
queda do produto interno bruto, da taxa de crescimento da economia (foi menos 7% em 95),
nós resolvemos que não íamos correr esse risco. Agora, foi uma resposta emergencial,
transitória, a um problema também emergencial e transitório. Portanto elas vão
declinar. Vão declinar tão mais rapidamente quanto mais nós possamos mostrar a nós
mesmos e ao resto do mundo que nós estamos com a situação sob relativo controle. Daí a
importância da reunião de hoje do presidente com as lideranças dos partidos políticos
para acelerar o processo de votação dessas reformas no Congresso, que foi acordado hoje,
como também o nosso empenho de reafirmar o compromisso na redução do déficit público
consolidado e a nossa capacidade de lidar com a questão do balanço de pagamento. Eu acho
que a redução dos juros virá inevitavelmente. É curta a duração que eles estarão
nesses níveis. Se você me permite uma comparação, quando nós elevamos os juros em
março de 95, foi parte por conta da crise do México, mas parte também por que nós
estávamos com uma economia extremamente superaquecida e para que ia comprometer o Real,
com a questão de demanda grande. Agora nós não estamos com a economia superaquecida e,
portanto, elas podem baixar muito mais rapidamente do que baixaram a partir da elevação
que nós fizemos em março de 95.
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