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Brasil precisa do ajuste fiscal para voltar a crescer, diz Levy

Em entrevista ao jornal A Gazeta, do ES, o ministro fala sobre os rumos da economia e defende que o governo tenha ferramentas para avaliar seu próprio gasto
publicado: 20/07/2015 00h00 última modificação: 13/08/2015 15h15

Em pleno sábado de manhã, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conseguiu atrair dezenas de empresários e lideranças ao Palácio Anchieta. O alto quórum é reflexo da importância dele para governo e da confiança nele depositada. O dia foi cheio, mas o ministro arrumou um tempo na agenda para falar com exclusividade ao jornal A GAZETA.


No bate-papo que segue, ele fala sobre crise econômica, ajuste fiscal, do bom humor da presidente Dilma Rousseff, conhecida por sua rispidez, e até, vejam só, sobre privatizações. “Tem algumas companhias públicas que estamos querendo abrir o capital. Elas ficarão mais competitivas, isso aumentará o valor delas, teremos um pouco mais de receita. É um ganha-ganha”. Confira:

 

Quando o senhor foi convidado para assumir a Fazenda, esperava tamanho desafio?

Tinha consciência da evolução da economia brasileira. Em 2014, na verdade, já havia alguns desequilíbrios, seria necessário corrigi-los. Estávamos vendo, por exemplo, a taxa de investimento cair. Estamos experimentando, este ano, a correção de determinadas coisas e também um ajuste de rota em vista de mudanças no mundo. Os desafios dessa travessia, em boa parte, eram previsíveis e inevitáveis.

 

O Brasil veio bem na década passada, mas hoje estamos numa grave crise. Onde se deu o erro?

As pessoas talvez não tenham percebido que o auge, em termos internacionais, se deu em 2011. Se você pegar os gráficos dos preços de commodities, verá que eles foram subindo mesmo após a crise (de 2008 e 2009). A partir de 2011 eles começaram a descer. Essa foi uma das razões para que o Banco Central, percebendo isso, relaxasse a política monetária, acompanhando, naquele momento, uma política fiscal mais rígida. Infelizmente, ao longo de 2012, a política fiscal foi relaxando, especialmente após o Banco Central ter trazido as taxas (Selic) até 7,5% (ao ano), e ela acabou ficando muito expansionista, dificultando o trabalho do Banco Central de manter as taxas de juros baixas. Teve de começar a voltar atrás, coisa que está fazendo até agora. Na medida que conseguirmos acertar o fiscal, veremos as taxas de juro, mais para frente, diminuindo. Não que tenha dado errado, talvez tenha havido um erro de interpretação em 2011 e 2012. Achando que as coisas se manteriam muito favoráveis, tomaram-se certos riscos que, depois ficou provado, não deram o resultado esperado. Quando isso acontece, tem de haver uma correção de rota. Quanto antes isso for feito, menores serão os custos.

 

O que o senhor chama de “tomar alguns riscos” é a tal nova matriz econômica?

Acho que houve a percepção de que se poderia mobilizar recursos que depois se mostraram menos disponíveis do que se imaginava.

 

O país perdeu 600 mil empregos nos últimos 12 meses. Só no mês passado foram 7 mil postos a menos só aqui no Estado. Até onde vai essa crise? Quando o país voltará a crescer, gerar empregos e ter uma inflação dentro dos limites?

A expectativa de inflação para o ano que vem já começa a cair bastante. Está próxima de 5%. Para 2017, está próxima de 4,5%. Já se começa a ver, no campo da inflação, as perspectivas melhorando. Na parte do emprego, talvez tenhamos mais alguns meses de desafio. Toda vez que se tem um ajuste, durante um certo período você terá problema com emprego. Até que a pessoa saia do setor que não é competitivo para o setor que é competitivo há uma fricção. A intenção é fazer as mudanças no menor espaço de tempo possível exatamente para minimizar esse tempo de ajuste. Por isso são importantes as outras medidas que temos de tomar para encurtar esse período.

 

Que outras medidas são essas?

Por exemplo, até algumas com fins fiscais procuram criar valor, abrir mercados... Tem algumas companhias públicas que estamos querendo abrir o capital. Elas ficarão mais competitivas, isso aumentará o valor delas, teremos um pouco mais de receita. É um ganha-ganha. Há também medidas na área de concorrência, que são importantes pois também é um caminho para baixarmos o custo. E as medidas tributárias: o ICMS, o PIS/Cofins e outras coisas desse gênero.

 

O senhor está falando de privatizações?

Em alguns casos, você tem a passagem do controle também. Depois tem a parte das concessões. Todo mundo fala do tal custo Brasil. Uma das maneiras de diminuí-lo é melhorando a infraestrutura, para isso, a participação do capital privado é muito importante. Já temos uma boa experiência disso em todo o país.

 

Em que setores da economia isso irá acontecer?

Estradas é um exemplo. Temos também os aeroportos. O Aeroporto de Vitória é um candidato para isso. Temos de estudar as condições. Tem lá o tema dos funcionários da Infraero que precisa ser estudado com cuidado. Na área de portos, o Espírito Santo também é um exemplo, com um potencial muito grande. A lei que a presidente Dilma sancionou em 2013 ampliou oportunidades nessa área, já que abriu a possibilidade de portos privados movimentarem a carga de terceiros. É possível, aqui no Estado, criar-se novos núcleos de atividade portuária e, claro, econômica. Desde lá do Norte, na região de Colatina; ali perto da Fibria, em Aracruz; mais para o Sul, depois de Guarapari; e também aqui no Porto de Vitória. O importante é não estarmos amarrados apenas ao Porto de Vitória, há várias outras possibilidades.

 

Ouve-se muito que a população tem de fazer seu ajuste em casa...

...E o governo tem de fazer ainda mais (risos)...

 

Era justamente sobre isso que iríamos falar. O governo segue com quase 40 ministérios...

Na verdade não são 40 ministérios, são várias secretarias, inclusive uma, que cuidava da política, acabou recentemente. Mas são vários outros, caso do advogado-geral da União e do presidente do Banco Central, que são considerados ministros, mas é muito mais um título honorífico do que um ministério mesmo. Mas acho que temos um problema sério do Brasil, o governo se transformou num grande transferidor de recursos, mas muitas vezes sem a eficiência necessária. Estamos trazendo os gastos discricionários, aqueles que não são determinados por lei, aos níveis de 2013, talvez iremos um pouco além disso. Agora, a grande maioria dos gastos são determinados por lei. Até os gastos com pessoal têm se mantido mais ou menos sob controle como proporção do PIB. Mas tem a previdência, o seguro-desemprego, que até atuamos para tentar reduzir.

 

O senhor acha que é preciso rever as obrigações do Estado?

É uma discussão. O governo tem de ter ferramentas para avaliar o gasto. Antes de cortar por conta de uma crise, é melhor ter um instrumento para avaliar os resultados que você obteve com aquele gasto. Qual é o objetivo do gasto? O governo tem de liderar isso. Muitas vezes há muitas boas intenções, mas isso não acaba bem definido. Para priorizar, tem de medir resultados. Isso nos dará eficiência. Não dá para fazer tudo, então temos de saber quais são as prioridades e se o jeito como está sendo feito está dando o resultado desejado. O governo tem de estar atento às demandas de sempre e às novas, afinal, temos de atender essa nova classe média.

 

O Brasil terá sua nota de crédito rebaixada?

Temos de trabalhar para que não seja.

 

Nessa tentativa de fazer o ajuste, o que mais te atrapalha: o fogo amigo do governo e do PT ou o populismo do Congresso?

(Risos) É importante a gente admitir o tempo para as pessoas. Você falou do Congresso. Nós temos de entender que no Congresso nem todo mundo passa o dia todo pensando em economia. Tem gente lá que acha que o mais importante é a ecologia, outro só pensa em ensino de línguas e assim por diante. Para essas pessoas entenderem um movimento importante na economia tem um tempo, há outros interesses e nem todos são economistas. Todos estávamos num mundo diferente, de repente o mundo muda, até que as pessoas se acostumem com a nova realidade demora um tempinho. Assim como eu não sei sobre maioridade penal, para outros é difícil decidir sobre economia.

 

Mas o senhor não acha que estão demorando um pouco para perceber essa nova realidade?

Acho que cada um tem seu tempo. Temos que estar lá conversando, explicando, tudo para que entendam essa nova realidade. Todos têm seu tempo.

 

Isso esteve na pauta de seu encontro com o ex-presidente Lula no início desta semana?

Eu não me encontrei com ele. Acho engraçado, eu estava com o presidente Renan (Calheiros, presidente do Senado). Houve uma confusão. Todos disseram que eu estava com Lula, mas eu estava com o Renan, discutindo ICMS.

 

Mas o senhor gostaria de estar com Lula? Já se noticiou que o senhor tenta marcar uma agenda com ele há algum tempo.

Claro. Gostaria de conversar com Lula, mas não estive com ele na terça-feira. Gostaria de falar sobre essas mudanças básicas que precisamos fazer para voltarmos a crescer. Temos de enfrentar esses desafios. Quando está tudo bem, muitas vezes você deixa de cuidar de coisas chatas porque aquilo não está te incomodando. Quando as coisas estão mais difíceis, é preciso olhar, não tem jeito. Outro dia eu falei: “O Brasil, para voltar a crescer, precisa trocar a fiação”. Aliás, me disseram que o Lula gostou disso. O que eu quis dizer com isso: você tem uma casa e resolve colocar um ar-condicionado, mas a fiação antiga da casa não dá conta. É chato trocar a fiação, não é charmoso, fica atrás da parede, mas, se não trocar, a energia vai ficar caindo. Daqui a pouco queima seu ar-condicionado. O Brasil, hoje, está no momento de trocar a fiação. Ou troca ou queima. Então, temos de acertar o ICMS, o PIS/Cofins, tem de olhar o mercado de crédito, o mercado de trabalho. São questões mais estruturais que precisamos lidar.

 

Como é a relação do senhor com a presidente Dilma e o PT?

Com o PT é como com qualquer partido. Me dou muito bem com o líder da Câmara, José Guimarães, com o Delcídio (Amaral, líder do governo no Senado). Trabalhamos juntos. A presidente Dilma é uma pessoa com uma capacidade intelectual e um conhecimento muito distinguido. Tem um interesse enorme para que as coisas no Brasil funcionem. Procura indicar técnicos para o governo. É também uma pessoa de cultura e de senso de humor também. É fácil da gente se dar.

 

O senhor já foi atacado por ministros, por parlamentares do PT e também por lideranças do partido. De vez em quando sente-se um estranho no ninho?

Não. Aliás, não me sinto atacado.

 

Sente-se apoiado?

Sim.
 

Confira aqui a entrevista publicada no jornal A Gazeta, do Espírito Santo