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Meirelles participa do Congresso de Tecnologia da Informação das Instituições Financeiras (CIAB Febraban) (23/06/2016)

publicado 23/06/2016 16h54, última modificação 05/07/2016 13h43
O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, fala em evento promovido pela Federação Brasileira de Bancos (São Paulo - SP, 23/06/2016)
Transcrição do Áudio

Muito obrigado, Murilo [Portugal, presidente da Febraban), amigo de longa data. Temos aqui presidentes de bancos, presidentes de outras entidades do sistema financeiro, diretores, gerentes e um público de tecnologia. Evento de maior importância, tradicional, que eu acompanho já há muito tempo e que, não tenho dúvida, é relevante na medida em que tecnologia hoje, de fato, não só já é o presente como cada vez mais o futuro do sistema financeiro. O e-commerce cada vez mais chega, de fato,nas transações financeiras e chega para ficar.

Portanto, eu acho que isso abre uma porta enorme de velocidade de transação, de custo mais baixo, de transparência, de melhor serviço etc. e, principalmente, de começar, devagar, a mudar a relação da sociedade com os seus recursos financeiros, com o dinheiro e, principalmente, com o sistema financeiro, que ainda hoje tem uma relação muitas vezes percebida com dificuldade de serviço, etc.

Eu acredito que a tecnologia pode cada vez mais resolver essa questão e é um desafio de todos aqui presentes, que eu tenho certeza que vão conseguir.

O Brasil vive hoje, de fato, um momento da maior importância porque nós chegamos a um ponto de decisão. Esse ponto é agudizado pela nossa crise econômica. Dependendo dos resultados deste ano nós teremos a maior recessão da economia brasileira, do final de 2014 até hoje, que será a maior desde que começou a ser medido o PIB - em 1902. Portanto é uma crise superior a de 29 e a recessão de 30.

Isto leva o desemprego já aos patamares em que está, com mais de 10 milhões de desempregados, e, mais importante, isso contamina todo o processo de funcionamento da economia exatamente pelo aumento muito grande da incerteza e a queda, portanto, das decisões de consumir, de investir, de contratar e a precipitação, muitas vezes, de decisões de desativar.

Eu tenho recebido setores da economia, industriais, por exemplo, que reportam ociosidade acima de 40%. Isso é uma situação dramática da economia: nós termos um parque de fábricas parado, com investimentos recentes, instalado de tecnologia e parado em 50% da sua capacidade.

Em se enfrentando uma situação dessa - que é um dado -  uma situação que encontramos, nós temos que enfrentá-la. E a experiência que temos tido não só no setor privado como no setor público é exatamente definir quais são as razões, quais são as causas, quais são os problemas fundamentais.

E isto é uma coisa muito interessante, porque houve até um estudo de bancos centrais do G20 que foi feito no início da década passada e que comparou países que tinham taxas de crescimento baixas e padrões de renda baixos e tinham conseguido aumentar este padrão através dos anos e, de forma bem sucedida, tinham mudado de patamar na economia mundial, com países que tinham renda similar, produtividade similar e que não tinham conseguido.

E a conclusão que se chega é que – é um estudo estatístico, não é um estudo de formulação de opinião, mas simplesmente de conclusão de resultados – o estudo mostra com clareza que todos os países que estão nessa situação têm uma longa lista de problemas. E os países que tiveram sucesso foram aqueles que conseguiram identificar quais são ou eram os problemas mais importantes que afetavam mais diretamente a economia daquele país, naquele período e atacavam estes problemas. Quais eram as principais causas naquele país, naquele momento.

Uma tentativa desorganizada de atacar todo tipo de problema ao mesmo tempo normalmente demanda muito esforço. Às vezes impressiona bem, tem muita atividade, mas os resultados historicamente mostram serem basicamente ineficazes.

Quando adotamos essa abordagem, por exemplo, em 2003, o maior problema do Brasil naquela época foi instabilidade financeira.  Quer dizer, nós tínhamos uma instabilidade. Primeiro no câmbio, no front cambial, isto é, balanço de pagamentos. O Brasil chegou a ter no piso US$ 15 bilhões de reserva, depois devia ao FMI de curto prazo US$ 30 bilhões, mais o Clube de Paris, mais....(encerra os exemplos).

Então era uma luta. Isso gerava uma desconfiança na moeda em que muitos brasileiros queriam investir aqui no Brasil, queriam investir real, só que não confiavam na moeda. Então existia a famosa dívida cambial. Era um título do Tesouro indexado em dólar, em moeda local, isto é, um título denominado em real indexado ao dólar. Estou dando um exemplo do problema daquela época... e a inflação que chegou a 17% em maio de 2003.

Pois bem, esse problema foi atacado de frente e houve a estabilização da economia brasileira muito rápido, o nível da confiança voltou muito rápido e o fato é que o Brasil, que estava passando por uma recessão forte em 2003, começou a crescer em julho de 2003, cresceu 61 meses sem parar . Teve cinco meses de recessão no evento Lehman Brothers e depois voltou a crescer, atingindo o pico de 7,5% em 2010. Portanto, isto mostra claramente que a abordagem de atacar as causas daquele momento é muito importante.

Agora a dinâmica é outra. O que nós temos agora é um aumento muito grande da desconfiança. Em resumo, uma queda do nível de confiança em função da trajetória fiscal. Esse é problema fundamental da economia brasileira hoje. Se nós tomarmos o aumento das despesas públicas, por exemplo, de 1997 até 2015, elas crescem em termos reais, acima da inflação, quase 6% ao ano. Essa trajetória não é sustentável a longo prazo.

Para darmos um exemplo, no período de 2007 a 2015 as receitas tributárias cresceram 17% acima da inflação e as despesas mais de 50%. De 2004 a 2015, por exemplo, as despesas públicas cresceram, em relação ao produto, quatro pontos percentuais, e isso se agudizou nos últimos anos. Era uma trajetória que veio subindo. Na segunda metade da década de 90, principalmente, isso foi financiado com o aumento da carga tributária. Posteriormente, na década passada, isso foi financiado com crescimento econômico e aumento do produto, e consequentemente com aumento da arrecadação.

Posteriormente um aumento maior de despesas, uma inclinação dessa curva, somada com incerteza, somada com outras questões da economia, de intervenções, etc. que fez com que o nível de confiança caísse mais ainda, tudo isso junto fez com que a atividade caísse e o quadro se agudizasse de forma dramática. E o desemprego subindo. Então chegamos a esse quadro.

Como é que nós temos que resolver o problema? Nós temos que endereçar. Como em qualquer situação como essa, no setor público, no setor privado, com a família, setor de saúde, onde for, até por identificar qual é problema, e vamos atacar esse problema de frente. Então o problema é fiscal. Não é possível ficar crescendo a despesa pública nesses termos: a 6% real, uma média de muitos anos, quase 17 anos. Nos últimos anos mais ainda, como vimos.

Como vamos fazer isso? Nós temos que atacar. O que mostra a experiência?  Que medidas heróicas, grande atividade, um cortezinho aqui, um cortezinho ali, temporário, um seguro ali, um investimento aqui, uma coisa, de fato, muitas vezes heróica mesmo, uma batalha terrível, sem subestimar o esforço e a luta da turma que fica ali segurando e fecha uma porta e fecha outra, corre pra lá, tem uma luta aqui e outra ali. Mas o fato concreto é que essas medidas terminam normalmente por ser revertidas.

E eu me lembro de uma história que eu às vezes conto que eu uma vez viajei com um representante de uma autoridade monetária estrangeira que veio visitar o Brasil e eu já levei, eu estava no governo e levei essa pessoa a Brasília, fomos visitar o ministro, e eu perguntei a ele... no meio da conversa, desculpe, nós fomos falando sobre o horizonte de planejamento do governo.

Ele falou: não, o horizonte de planejamento dos países asiáticos é três vezes maior do que o americano, por isso eles tendem a crescer mais, é uma das razões, além do trabalho duro, da poupança etc... e da população muito grande etc.

Nós chegamos lá e perguntamos ao ministro qual era o horizonte de planejamento do governo brasileiro... Um mês. Ele falou: mas senhor ministro, não é curto, não é pouco? Ele falou: não, tá bom, vai, talvez seis meses. Não, porque nós temos aqui alguns problemas muito importantes. Nós temos um problema fiscal agora gravíssimo. E nós estamos aqui na luta para cortar despesa e o empenho aqui... segurando no caixa aqui... e etc e a luta aqui do dia a dia... e tal, e tem mais um problema aqui da inflação... que nós temos que segurar e tem um problema com os preços aqui... A autoridade estrangeira, muito civilizado, virou e falou: compreendo perfeitamente, a situação de vocês talvez demande de fato um foco no curto prazo. Foi gentil. Foi embora.

O meu problema com essa conversa é que ela tem algumas décadas. Então nós temos que olhar a situação desse ponto de vista. Não adianta nós olharmos... por isso é que nós então  fizemos um programa que, em primeiro lugar, avaliou qual é o déficit real este ano. Qual é o déficit primário real este ano. Fazendo todas as contas. Levando em conta as obras que já foram executadas, medidas e estão para ser pagas, atraso de aluguel, de embaixada do Brasil no exterior, atraso de pagamento de organismos internacionais, vai por aí. Pagamentos, restos a pagar etc. Vamos fazer um déficit realista para sabermos qual é a nossa situação e a partir daí, começar de forma organizada, então, concluímos, publicamos, aprovamos, o Congresso Nacional, de uma forma clara, transparente, franca, 170 bilhões de reais e 500 milhões.

Pois bem. Muito se surpreenderam, como etc? Esse é o déficit. A primeira coisa é dizer à sociedade, ao Congresso, parlamentares, imprensa, a todos, senhores e senhoras. A partir daqui que nós vamos voltar, quer dizer. E é apertado. Tem que manter um controle rígido ali etc. E depois, qual é a abordagem seguinte. A abordagem seguinte é propor a evolução, como todos estão informados, dos gastos públicos nos próximos 20 anos. Muito longo, 20 anos... Tem que ser. Nós estamos falando aqui de um crescimento de gasto público de 20 anos.

Tem que olhar pra frente em 20 anos. Com a possibilidade de mudança do índice depois de dez. Por iniciativa do presidente com aprovação do Congresso depois no 10º. Pois bem. Qual é a ideia. Bom, mas vamos segurar esse aqui, segurar aquela despesa... Vamos começar pelo teto. O total das despesas. O total das despesas não vai poder subir mais do que a inflação. Significa o quê? Vai subir com a inflação, está indexando... Não, não está indexando, está mantendo o poder de compra real do governo federal. Porque não adianta fazer uma coisa absurda, irrealista, nominal, supondo inflação zero. Quem está com a inflação zero no exterior está lutando para subir. Está com medo de deflação, por conta de recessão.

Então vamos colocar a inflação, vamos aguardar que o Banco Central traga a inflação para a meta e vamos todos então a partir de agora começar a ter uma evolução... isso significa uma coisa muito forte. O crescimento real das despesas públicas será zero. Isto é, zero acima da inflação. Versus 6% em mais de 15 anos, em 17 anos. Versus 50% de 2008 a 2015. Zero. Não vamos subestimar isso. E, segundo, por um longo prazo. O que significa que, se isso for colocado, como esperamos que seja, na Constituição, isto passa a ser uma norma fortíssima. Muito bem, segundo. Existem itens de vinculação de despesa que são incompatíveis com isso. Três grandes. Vinculação das despesas de saúde à receita e... educação e saúde. Nós propomos que educação e saúde também sejam corrigidas pelo mesmo critério. O limite mínimo de 2016 seja corrigido pela inflação nos anos seguintes. Portanto, consistente com a evolução da meta. Pois bem. Caso contrário, seria inócuo esse limite, porque ele iria ser violado muito rapidamente.

Algumas pessoas então reclamam agora do outro lado. Mas saúde e educação é prioridade nacional. De fato. Quantas vezes nos últimos anos eu próprio, venho escrevendo artigos semanais nos jornais dizendo que o maior desafio do Brasil em termos de produtividade para crescer a taxas mais elevadas é a educação etc. Verdade. Agora, nós não podemos começar quebrando o país. Isto é, o problema da educação brasileira não é a quantidade de recursos que se coloca em proporção ao PIB. O problema da educação brasileira é qualidade. Se nós olharmos os mapas de escolaridade, de inclusão, número de anos na escola, número de alunos, já houve uma convergência muito grande com os padrões desenvolvidos. Onde está muito ruim é na qualidade. E isso sim vai demandar investimentos muito sérios e não será simplesmente com alocações automáticas de recursos despreocupadamente que nós vamos resolver esse problema.

Então nós precisamos, em primeiro lugar, restaurar a saúde financeira do Estado. Segundo, manter em termos reais, sim, recursos para a educação e saúde. Por quê? Alguns dizem: vai diminuir, vai comprimir. Não vai comprimir. Vai manter em termos reais. Outra coisa. O Congresso Nacional tem o direito de aumentar despesas, por exemplo, com saúde acima do mínimo. Outras despesas terão que ser comprimidas para compensá-lo.

E o que acontece se violar? Passar, por razões diversas, passar. Bom, então a própria Constituição vai determinar índices automáticos de correção. Neste momento, aumento de salários, subsídios, vencimentos etc, remuneração, passa a ser zero em termos nominais. Até que se volte ao teto. Todos os subsídios etc, de toda ordem, inclusive empresariais etc, não podem ser aumentados em termos nominais até que o limite volte a ser obedecido. E isso é aplicado por poder. Executivo, Legislativo, Judiciário. É uma norma constitucional fortíssima. É interessante, é tão novo no Brasil olhar a longo prazo, com normas fortes e consistentes que todo mundo olha e tem duas reações, assim, à primeira vista. Uma... tsc.. é pouco. É pouco. A outra é... não, mas... não vai dar. Não vai funcionar. Vai apertar demais. Outra é: não, o Congresso não vai aprovar isso. Tudo isso terá que ser enfrentado no devido tempo.

Eu acho que uma grande crise é uma grande oportunidade. Aliás, o ideograma chinês, do mandarim, da crise já tem essa característica. O mesmo ideograma para crise é para oportunidade. A crise oferece oportunidade. A crise de 99 ofereceu oportunidade além da responsabilidade fiscal. A crise de 2002, 2003 ofereceu uma grande oportunidade de uma estabilização monetária, inflação etc. então eu acho que este é o momento exatamente em que a sociedade demanda soluções. E eu tenho condições de chegar para os parlamentares e dizer com toda a tranquilidade, com toda a sinceridade e franqueza que: senhores e senhoras. 

Os senhores têm que voltar à sua base no fim de semana. Os senhores vão perceber que o que preocupa o seu eleitor, a sua base, não é hoje a emenda, o tamanho do recurso que se leva lá para o seu município, mas é o emprego. Todos estão preocupados se você está dentro de casa, com medo... o que está empregado está com medo de perder o emprego e o que está desempregado está desesperado. Então o que acontece? O que nós precisamos fazer é restaurar o crescimento. Para restaurar o crescimento temos que restaurar a confiança na solvência do Estado. 

A confiança de que o governo consegue manejar as suas próprias contas, e a economia a partir daí começa inclusive em termos objetivos você pode ter uma diminuição, em termos reais, do total de recursos absorvidos da sociedade, seja via tributação mas principalmente seja via empréstimos, financiamento da dívida pública, que quando cresce de forma geométrica vai absorvendo cada vez mais recursos da sociedade, além da questão da confiança. 

Isso é um fato fundamental. E outro fato de que a história mostra que no momento em que se controlam as contas públicas, no devido tempo, as taxas de juros reais da economia cai. Não, porque o banco central vai baixar a Selic, vai subir a Selic. Esse é outra conversa. 

A taxa de juros estrutural da economia que é alta assim. A razão principal está nesse tipo de risco. Antes era no risco cambial, no risco político, não sei o quê, e principalmente o maior risco de todos, é o risco fiscal. Portanto nós tempos que baixar isso. Porque aí nós vamos diminuir não só o montante de recursos que são adicionados à dívida pública, não só via déficit da dívida pública via déficit que tem que ser financiado. Déficits fiscais cada vez maiores, mas também de juros cada vez maiores. 

Então a medida que nós possamos mudar essa tendência, mas não vai ser ano que vem, calma. Calma, porque nós queremos resolver o problema. E o problema é um problema de longo prazo. Um problema que data da constituinte de 88 e não vai ser resolvido em dois dias. Agora, tem que ter uma solução suficiente forte que de fato qualquer um dos senhores e das senhoras jornalistas, qualquer um dos analistas vão fazendo as suas contas e vão concluir que, com o país voltando a crescer, com a taxa estrutural passando a cair, etc, etc, que essa trajetória da dívida vai ser estabilizar agora. 

Muito bem. Mas ficou faltando, o senhor falou, dois assuntos importantes. Educação e saúde, vetores importantes, mas tem um terceiro. A previdência social. Sim. Nós vamos ter que olhar. Agora a previdência social, nós concluímos que ela precisa de uma proposta constitucional própria. Porque é algo complexo que envolve determinados segmentos da sociedade e que foi discutido no mundo inteiro de forma muito abrangente e muito complexa. Eu tenho confiança de que isto está sendo endereçado. 

Primeira medida muito importante tomada pelo presidente foi tirar a secretaria da previdência que era do ministério do Trabalho e da Previdência Social. E a secretaria da Previdência foi transferida para a Fazenda. Alguns dizem, ué, porque? Simples, porque a reforma da previdência agora é fundamental. Então isso é um gesto prático e simbólico. 

Marcelo Caetano, um especialista, foi nomeado secretário da Previdência, um nome que conhece previdência que está estudando e propondo modelos de reforma há muitos anos. Um profundo técnico como os demais membros da equipe econômica, cada um na sua especialidade. E portanto, tem totais condições de estar liderando esse processo juntamente como outras áreas de governo. 

Portanto, isto é um processo em andamento. Avaliações otimistas falam em, no caso da emenda constitucional, em dois ou três meses para aprovação e hipóteses pessimistas falam até o final do ano, para valer no ano que vem. Eu não vou ficar fazendo previsão pra dizer se é otimista ou pessimista, etc. eu acho muito importante levar a mensagem a todos de que precisa ser aprovada. E que há uma possibilidade, em minha opinião, muito grande, porque o momento é esse. É um momento de crise, é um momento de consciência. É um momento em que a sociedade brasileira e o congresso têm aprovado coisas importantes. Tem aprovado a questão do próprio número do déficit esse ano. O congresso agora começa a aprovar o projeto de governança das estatais, dos fundos de pensão. Então tirou um item do projeto do fundos e das estatais. Não, mas o senado já vai colocar de volta. 

A questão do pré-sal. A abertura do modelo do pré-sal também já está em andamento. Com a definição de prioridade por parte desse governo. Eram projetos que já estavam lá, mas que, agora, foram declarados como prioritários. Em resumo, que tudo isso está caminhando. A DRU foi aprovada com vasta maioria. Em resumo, tudo indica que existe uma disposição sim do Congresso e um bom diálogo do governo com o Congresso, do executivo com o Congresso. E eu acho que tem de fato uma possibilidade grande. 

Nesse aspecto eu acho até uma situação interessante. Eu dei uma entrevista um dia desses para uma jornalista muito competente na televisão. No início da entrevista ela começou a ler, o Brasil hoje tem os seguintes problemas Nossa, mas é muito problema. Eu falei, de fato é. Mas estamos aqui para endereçar e para resolver. Vamos discutir aqui como resolver. E esta é a oportunidade. 

Alguns dizem, mas tem certa ambiguidade aí. Qual ambiguidade? Não, ao mesmo tempo em que propõe um teto duro, aumento do salário de funcionários públicos, por exemplo. Bom, vamos colocar as coisas nos devidos termos. Primeiro, existia o projeto de aumento dos salários dos funcionários públicos, já pactuado no governo, já acertado pelo governo anterior, já em andamento no Congresso e no processo legislativo normal que a avaliação muitas vezes é a seguinte, qual é a razoabilidade de se tentar bloquear isso a qualquer custo, já que nós temos coisas muito maiores agora entrando no país. 

Segundo, este aumento aprovado é um aumento menor do que a inflação. E na realidade em termos reais, por este aumento aprovado, o total do salário aprovado para o funcionalismo público federal vai cair, em termos reais, pela primeira vez, em muitos anos. Então, nós precisamos ser objetivos. Isso significa que, dentro do teto, por esse projeto aprovado, o percentual de despesa dos funcionários públicos tende a cair. E é um projeto que já estava lá e é um projeto realista. Então, este não é nada contra o que vai ser predominante. Isto é, as despesas públicas vão crescer, desde que dentro deste limite. 

Não é um congelamento nominal, porque isso duraria quanto tempo? Uma semana. Não é viável isso. Pararia o país. Uma empresa pararia. Os senhores e senhoras sabem muito bem. Se fizesse um congelamento nominal na sua empresa, no seu estado, na sua família? Muito bem. Então nós temos agora um processo harmônico de que real das despesas públicas e que vai colaborar fortemente com a queda estrutural da taxa de juros e, em última análise, com o trabalho do Banco Central para levar a inflação para o centro da meta. Então, com isso tudo, nós temos uma economia que tem tudo para voltar a crescer. 

Outra coisa importante. Foi feita a renegociação da dívida dos estados. Outros disseram, mas vai custar alguma coisa? De novo. Nós temos que fazer algo que seja eficaz. Tem duas coisas que precisam ser levadas em consideração. Primeiro, o problema fiscal do Brasil não é apenas do governo federal. Somos uma federação. São todos os estados. E todos os estados, a grande maioria, muitos deles, mas nem todos, alguns deles fizeram o dever de casa, sim, fizeram ajustes fiscais fortes. Mas os maiores estados, digamos assim, grande parte deles, têm tido crescimento de despesa substanciais, acima da inflação. Crescimento de despesas com funcionários públicos acima da inflação, etc. Então, isso é insustentável, então foi feito um acordo, onde, neste acordo, os estados, no próprio projeto de lei que vai instituir esse acordo, está estabelecido que a evolução das despesas públicas nos estados obedecerá ao mesmo limite de crescimento do governo federal. 

No próprio projeto de lei que vai instituir este acordo está estabelecido que a evolução das despesas públicas nos Estados obedecerão ao mesmo limite de crescimento do governo federal, para todos os Estados. Isso no projeto de lei que faz a reestruturação da dívida, portanto, eles serão forçados a aderir, e todos já concordaram fazer isso. Alguns não se interessam muito, porque a maior parte da dívida daquele Estado especificamente não é com o governo federal. Mas, de qualquer maneira, chegamos a um acordo e aceitaram isso. Então, nós vamos ter, aí sim, uma situação permanente e depois consta no contrato o controle disso por 20 anos: o crescimento das despesas reais. 

Qual é o segredo disso? Qual é o ponto importante? Porque não adianta fazer qualquer renegociação, ganhou mais um pouquinho ali, um pouquinho aqui na renegociação e continuam gastando. Daqui a três anos, vão ter problema igual. Precisamos acabar com essa visão no Brasil. Nós temos que começar a resolver coisas com a visão de longo prazo. 

E tem uma outra coisa muito importante: o Supremo Tribunal Federal tinha tomado uma decisão e suspendido o pagamento dos Estados que ganharam liminar, que foram 14, os maiores, e estabelecido uma taxa de juros simples, punitiva, que estava custando à União alguns bilhões de reais por mês, só de diferença de taxa de juros, sem a questão da ausência de pagamentos. Em resumo, não foi uma decisão “bom, vamos fazer um acordo com os Estados agora”. Não. O Supremo Tribunal tinha determinado que deveria haver um acordo e se não houvesse, enquanto não houvesse, os Estados não pagavam nada, os que tinham uma liminar e se apurava taxa de juros em juros simples, não compostos. 

Portanto, foi feito um acordo, foi feito dentro do prazo determinado pelo Supremo e com grande sucesso, porque nós conseguimos incluir essas contrapartidas e o custo é dentro daquilo que estava no Orçamento. Isto é, é dentro daquilo que foi colocado na meta de primário este ano. 

Então, conseguimos exatamente atender à programação inicial, fazer essa estruturação e conseguir todas as contrapartidas necessárias, visando esse controle de despesas e cláusulas punitivas muito fortes em caso de descumprimento nos anos seguintes. Portanto, é absolutamente consistente com esse projeto geral. O déficit deste ano é um déficit que está dado, já estava dado, conseguimos então, portanto, fazer esta reestruturação, que no caso do governo federal necessita de ter aprovação de emenda constitucional. No caso dos governos estaduais, não, porque o próprio projeto de lei que reestrutura a dívida já estabelece pelos primeiros dois anos vale este critério e o contrato já estabelece que vale pelos 20 anos. 

Pois bem. Então, resumo deste quadro todo. Isto também nos deixa em condições,  agora sim com tudo isso em andamento, de nos dedicar a uma agenda microeconômica de crescimento: produtividade, tecnologia, etc. Ontem nós estivemos discutindo lá uma lista levantada por vários setores da sociedade, vários setores empresariais, etc, nos levaram uma lista. Interessante, estamos analisando com muito detalhe, com 150 sugestões que não têm custo fiscal de aumento da produtividade da economia. Vamos nos dedicar a isso com toda a seriedade.

Em resumo, a ideia é estabelecer confiança na economia, voltar a crescer e a partir daí sim aumenta a arrecadação, a partir daí sim aumenta o superávit primário, a dívida começa a cair à frente, maiores recursos disponíveis para consumo, investimento, etc, e a partir daí a ideia é entrarmos num período de crescimento sustentado no Brasil. 

Finalmente, para terminar, alguns me perguntam: mas o que eu não estou entendendo é o seguinte, este é um governo interino e pode ficar mais dois meses, dependendo do resultado da votação pelo Senado ou, dependendo da votação, ficar dois anos e meio. E o senhor está falando aqui do projeto de 20 anos, com mudanças estruturais na economia. Minha resposta a isso é muito simples: eu fui convidado e aceitei ir para o Ministério da Fazenda neste momento não foi para fazer um projeto para um governo; [foi] para fazer um projeto para o país, de longo prazo. E apresentar as propostas que vão resolver o problema do país de longo prazo, aumentar a confiança, fazer com que o ciclo vicioso tenha uma inversão, [que o país] comece a crescer, [tenha] um ciclo virtuoso, o país comece a crescer, aí as empresas começam a recuperar. Bom, tem várias coisas aí que nós vamos ter que fazer junto disso, as empresas começam a se recuperar, começam a contratar, o consumidor fica mais confiante, os bancos têm condições de emprestar, etc. A roda da economia gira de forma diferente. 

Agora, quem vai estar aqui daqui a três meses ou daqui a três anos ou daqui a dez [anos], isso não é relevante para mim no momento. Eu estou cumprindo minha função aqui, agora. E eu acho que é o que todos nós deveríamos fazer ao invés de estarmos preocupados quanto tempo eu vou estar nesta cadeira, quanto tempo o Murilo [Portugal] vai estar ali naquela cadeira, presidente da Febraban. Isso é menos relevante para todos. O que é relevante é o trabalho que cada um de nós faz pelo país no momento e o impacto deste trabalho a longo prazo, que o longo prazo, como eu gosto de dizer, demora, mas chega. Obrigada a todos. Sucesso. 

[Neste momento, o presidente da Febrabran, Murilo Portugal, agradece a exposição do ministro, que classificou como “muito lúcida e muito consistente”. Sobre a medida de teto, Murilo diz acreditar que pode representar para política fiscal o que o Plano Real representou para a inflação. Explica que, infelizmente, o ministro não poderá atender a perguntas. Cita o atraso do início do evento em decorrência das condições meteorológicas desfavoráveis em São Paulo] 

Ministro Henrique Meirelles: Obrigado, Murilo. Infelizmente, a questão meteorológica de São Paulo nós não conseguimos resolver – ainda –, mas quem sabe no futuro, com o avanço da tecnologia que os senhores estão trabalhando aqui, com o avanço e melhora das contas públicas, nós poderemos ter uma tecnologia aqui em Congonhas, onde os aviões possam pousar com visibilidade zero. Obrigado, sucesso a todos. 

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